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O Vingador do Futuro: Douglas Quaid é a pessoa que somos e a que queremos ser




É melhor viver uma realidade cruel do que uma ilusão magnífica, assim disse um destes grandes pensadores de outros tempos. 

Você já teve um sonho tão realista, detalhado e vívido que, ao acordar, sentiu que a realidade havia se modificado? Que, na verdade, o sonho era real e que o real é apenas sonho? Se sim, então você pode ser um desses agentes secretos com memórias apagadas e um claro desejo por mulheres depravadas e discretas! Ou talvez você seja um embaixador intergalático que mantém a ordem em boa parte do universo e, bem, se for o caso, cuidado... Você pode estar sendo vigiado. Na pior das hipóteses, enrole uma toalha molhada na cabeça para abafar o sinal do rastreador.

RECORDE PARA MIM. DE GRAÇA, POR FAVOR!

Douglas Quaid é um destes personagens urbanos e modernos comuns, um típico homem futurista com problemas do passado - e do presente. Seu maior pecado é o desejo de fugir da própria realidade. Ele quer ir à Marte, realizar suas fantasias e, principalmente, se tornar aquilo que ele mais sonha. Infelizmente, ele é apenas um ser humano medíocre, comum e sem muitas conquistas na vida. 

Tudo muda quando Quaid resolve ir à Recall, uma empresa que "por um preço razoável, pode recordar para você" tudo que você tiver em mente. Com a tecnologia para implantar memórias falsas na sua cabeça, as pessoas podem ser aquilo que elas mais desejarem. Você quer ser um piloto de corridas que já foi pentacampeão mundial e agora se aposentou? Sim, você pode; Mas se quiser ser apenas o cara que conheceu todos os planetas do sistema solar, bem, você também pode! Ou talvez você seja ousado e queira ser um agente secreto. Gostou da ideia?

O problema começa quando, na verdade, Quaid descobre que as memórias que desejava ter implantadas em sua cabeça - as de um agente secreto que viajara à Marte em missões - eram reais, mas tinham sido apagadas pela agência em que trabalhava antes. Aqui, toda a trama começa a se desenvolver. A Recall tenta solucionar o problema deixando Douglas achar que as memórias em sua cabeça eram as que ele havia comprado, porém, mal implantadas e, portanto, deixaria de lado o possível dilema de descobrir sua verdadeira identidade. 

Entretanto, quanto mais a trama se desenvolve, mais os problemas aparecem. De policiais que invadem sua casa, uma esposa falsa que estava ali para vigia-lo até uma revolução em Marte, Quaid se torna aquilo que mais desejava: um agente, um espião.

QUEM É VOCÊ E O QUE VOCÊ QUER SER QUANDO CRESCER?

Mas o que, de fato, Douglas Quaid representa? O que, de fato, o Vingador do Futuro nos mostra? A obra, em seu sentido literal, traz uma narrativa que nos deixa em dúvida o tempo todo: Quaid está sonhando em sua viagem paga ou realmente despertou para a realidade? E isso, por si só, já é suficiente para nos deixar confusos e, de certa forma, curiosos para saber como a história se desenrolará. 

Mas quando nós mergulhamos fundo nos oceanos secos de Marte e buscamos desvendar alguns dos conflitos do filme, chegamos a questões muito mais intrigantes. Afinal, chegaremos ao ponto em que nossa existência será tão chata que precisaremos criar falsas memórias? Chegará o momento em que forjaremos nossa própria história para sermos mais felizes? Afinal, o que será real e o que será falso?

Você já deve ter ouvido falar de pessoas que são X nas redes sociais, mas que na vida real são completamente diferentes. Pessoas que, nas fotos, vivem um verdadeiro conto de fadas, enquanto na realidade sofrem com a própria realidade monótona. E, seguindo por essa perspectiva, nós descobrimos o que significa a vida de Douglas Quaid. A monotonia, a rotina e a falta de motivação são os determinantes que criam o clima de irritação do personagem principal e também nosso. Nós acompanhamos diariamente nas mídias a construção de histórias e acontecimentos que, em nossas vidas, nos tornariam pessoas memoráveis. Histórias de super heróis, de romances que ultrapassam barreiras ou mesmo dramas com superações no final que parecem nunca acontecer em nossas vidas, apenas na do outro. No fundo, aparentemente, todos nós temos um pouco de Douglas Quaid. 

Porém, nossa tecnologia ainda não nos permite criar memórias tão realistas que nem mesmo nossa mente conseguirá distinguir o real da ficção. Por hora, nós nos contentamos em fabricar histórias bonitas para os nossos seguidores e amigos, para aqueles que nos veem poucas vezes e que nos conhecem pelas redes sociais. Por meio deles, nós transferimos nosso "Quaid interior" e passamos a ser um pouco mais como as histórias fantásticas. As pessoas desejam ter uma vida como a nossa e isso nos satisfaz. Ainda assim, nós criamos as nossas fantasias imaginárias e as espalhamos pelo mundo, criando até mesmo memórias de coisas que nunca fizemos para satisfazer nossas necessidades por aceitação e, principalmente, emoção. Uma razão de viver.

Douglas Quaid escolhe viajar para Marte, ser um agente secreto e libertar todo um povo oprimido por um magnata inescrupuloso. Ele escolhe abandonar sua própria vida, desiste da sua própria realidade por um mero instante, em busca de um sonho, de uma razão para existir. Quaid é o homem que perdeu a sua própria alma. E nós, enquanto pessoas, com nossos Quaids interiores, também estamos perdendo nossas almas. O que nós fazemos, o que nós somos, quem nós realmente somos, está se perdendo aos poucos por um desejo cada vez maior de popularidade e aceitação. Quando passamos a ser Quaids, perdemos nossa própria razão de existir, não queremos mais ser os protagonistas de coisas novas, mas sim os atores de fábulas de outrora. 

Se o filme fosse feito hoje, talvez Quaid não desejasse ir à Marte, mas simplesmente ser alguém com uma vida interessante, com coisas para compartilhar com os outros. Assim, Douglas Quaid desiste da própria essência para se tornar apenas uma cápsula recheada de coisas alienígenas. No fim, ele é apenas um homem comum, com uma vida comum, mas que anseia por mais. Ele é o rio represado que força a barragem até que consiga se libertar, o foguete que luta com toda a sua potência para se livrar da força da gravidade. Douglas Quaid é a pessoa que nós somos, comuns e simples, e é também a pessoa que gostaríamos de ser, incríveis e diferentes. Únicas. Fantásticas.

Douglas Quaid é o nosso desejo de ser algo mais do que realmente somos. E você, que história gostaria de ter vivido? Por um preço razoável, podemos recordar para você.

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