A Caverna, A Cidade e As Estrelas
Um bilhão de anos no futuro, Diaspar impera solitária num mundo morto. Seus habitantes, belos e pacíficos, evoluíram até alcançar a imortalidade. Há paz, há ordem, todos vivem de acordo com o planejamento executado metodicamente pelo Computador Central que governa a cidadela; todos, menos um; todos, menos Alvin.
A HISTÓRIA, SEGUNDO O COMPUTADOR CENTRAL
A Cidade e As Estrelas nos leva até um futuro tão distante, tão longe, que não podemos mensurar em nosso imaginário: um bilhão de anos. A humanidade, outrora senhora do Universo, expandira-se e fundara o Império. Entretanto, no auge de seu desenvolvimento, seres misteriosos conhecidos apenas como "os Invasores" apareceram, travando uma batalha mortífera contra o Império dos humanos. A batalha, entretanto, encerrou-se com um acordo. Derrotados, porém teimosos, os humanos firmaram acordo com os Invasores: Abandonariam para sempre o infinito do Universo e se refugiariam para sempre na Terra, seu primeiro lar, desde que não fossem mais perturbados pelos inimigos implacáveis. O acordo, é claro, fora aceito.
Essa, entretanto, é apenas uma parte da história. É o passado de Diaspar, a última cidade humana.
Os humanos alcançaram a imortalidade, vivendo até mil anos inteiros sem envelhecer, porém, retornando a um "banco de memórias" onde repousam por milênios até que possam voltar a vida, uma espécie de reencarnação aos moldes espíritas. A inteligência que controla esse banco, o Computador Central, é também aquele que governa e organiza a cidade de Diaspar. Automatizada, fluida e imponente, a cidade não deixa que nenhum de seus habitantes sofra ou sinta qualquer tipo de necessidade.
É de se imaginar que em um bilhão de anos os seres humanos sofreriam mudanças, e assim ocorre. A ausência de pelos - exceto na cabeça, de unhas e dentes, alinhada com corpos que não adoecem e não envelhecem além da fase adulta, a incapacidade de se reproduzir pelo sexo e a falta de umbigo seriam as diferenças mais marcantes. De resto, porém, as mudanças mais fortes se veem na mente e na alma.
Os humanos, traumatizados pelo seu passado e pelo medo dos Invasores, se tornaram vítimas de um confinamento autoimposto.
"Durante um bilhão de anos, Alvin, a raça humana tem vivido nesta cidade. Desde que o Império Galático desmoronou, e os Invasores retornaram às estrelas, este tem sido o nosso mundo. Fora dos muros de Diaspar, nada existe - exceto o deserto de que falam as nossas lendas." (pág. 13, A Cidade e As Estrelas)
A geração de novas pessoas dentro de condições pré-estabelecidas gerou, também, o gene do medo da liberdade. Tornou-se parte dos seres humanos ter medo do exterior, medo de sair da cidade e ver as estrelas. O medo passou a governar os humanos, e sua mão direita era a covardia; mas havia alguém diferente, e esse alguém era Alvin.
Se a curiosidade era um traço esquecido pelos genes humanos, Alvin então seria uma mutação; um indivíduo Único - como fora propriamente chamado - e que certamente modificaria a estrutura covarde de Diaspar.
A CAVERNA, A CIDADE E AS ESTRELAS
A leitura desse livro é, sem dúvidas, fascinante. Imaginar a civilização um bilhão de anos no futuro, tão diferente, mas ao mesmo tempo tão parecida, e é essa a grande característica das melhores obras de ficção científica: reimaginar o real e apresentá-lo como novo, mostrando como algo distinto de nós. Assim, somos capazes de nos criticar sem perceber.
Enquanto mergulhava em Diaspar e acompanhava a história de Alvin, senti pontadas do que poderia ser uma reflexão profunda e antiga. Havia um medo, um trauma pouco conhecido, mas arraigado como uma crença inquestionável, do desconhecido, do exterior; e os que ousassem, de qualquer maneira, ir ao exterior, eram rapidamente censurados, omitidos. Acima de tudo, o ser humano de um bilhão de anos no futuro perdeu uma de suas principais características: a curiosidade e a coragem.
Apesar de viverem em uma cidade que tudo conhecia e podia burlar até as próprias leis da matéria, não havia conhecimento real da própria história da humanidade, tudo que havia era lenda e mito. Imersos numa névoa perene, os humanos, tão evoluídos, outrora conhecedores de todos os mistérios possíveis, passaram a ser meros espectadores de um show de fantoches. Estavam, por fim, numa caverna tal qual a alegoria de Platão.
O famoso "mito da caverna" de Platão nos mostra o que acontece quando somos expostos a uma nova realidade e tentamos mostra-la aos outros. Um homem liberto da venda que ofuscava sua visão do conhecimento, tenta tirar a dos colegas, mas estes apenas respondem com hostilidade e reprovação. No fim, o mito da caverna de Platão pode ser resumido em uma frase: A mente que se expande, jamais retorna ao seu tamanho original.
(Ilustração de O Mito da Caverna)
Alvin é o homem que sai da caverna, Diaspar. Ele é o homem que retoma conhecimentos perdidos e, em tão pouco tempo, obtém a visão de algo muito maior do que se imaginara. Alvin quebra os preceitos e preconceitos dos humanos em Diaspar, mas sua grande conquista não poderia jamais estar completa se ele não pudesse levar o mesmo saber para seus companheiros.
"Nossos ancestrais construíram um império que alcançou as estrelas. Os homens percorriam à vontade esses mundos... e hoje seus descendentes receiam aventurar-se além das muralhas de sua cidade. Terei de dizer-lhes por quê?
E porque temos medo, medo de uma coisa que aconteceu nos primórdios da história. Deveremos para sempre nos ocultar como covardes, fingindo que nada mais existe... porque há um bilhão de anos os Invasores nos expulsaram de volta para a Terra?" (pág. 108, A Cidade e As Estrelas)
Alvin era um quando estava em Diaspar, e outro quando voltou para ela. O conhecimento o libertou de preconceitos, receios e medos antigos, fazendo-o se tornar algo novo, algo melhor. E por isso havia a necessidade de carregar consigo todos os outros, para que vissem as maravilhas que ele vira.
TRACE O RUMO PARA AS ESTRELAS
Em tempo, sempre vivenciamos e talvez sempre vivenciemos essa luta constante em nossa história. Talvez nunca consigamos realmente abandonar o medo, a covardia e tantos outros defeitos de nossa espécie que, em exagero, nos tornam algo miserável. Quantos não se negam a sair de seus próprios mundos, de suas próprias Diaspar's, por medo de conhecer algo diferente e mudar quem são? Quantos não fogem de novas possibilidades e novas aventuras por pura covardia diante da possibilidade da mudança ou da novidade?
A caverna de Alvin era Diaspar, seus preconceitos eram os mesmos de seus companheiros, tanto é que várias são as vezes que ele se questiona se estava fazendo o certo ao afrontar tão diretamente os medos mais profundos dos homens; mas, como dissemos, uma mente que se expande, jamais retorna ao seu tamanho original.
As estrelas eram o auge de seus sonhos, o ponto máximo que ele poderia alcançar para se libertar e adquirir sabedoria. No fim, tendo conhecido aquilo que tanto desejava, Alvin não se tornou egocêntrico, arrogante ou mesmo louco; Alvin entendeu o que precisava fazer: ele precisava retirar todos da caverna, ele precisava mostrar as estrelas para as pessoas.
As estrelas eram o auge de seus sonhos, o ponto máximo que ele poderia alcançar para se libertar e adquirir sabedoria. No fim, tendo conhecido aquilo que tanto desejava, Alvin não se tornou egocêntrico, arrogante ou mesmo louco; Alvin entendeu o que precisava fazer: ele precisava retirar todos da caverna, ele precisava mostrar as estrelas para as pessoas.
Por fim, a pergunta que não quer calar e que você provavelmente deve estar se fazendo nesse momento - e se não estiver, passará a fazer - é: Qual é a sua caverna?


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