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Haviam dois homens num hospício... | Batman: A Piada Mortal

Já ouviu uma piada tão boa que nunca mais conseguiu parar de rir? Um trocadilho tão bom que, maldição, você não conseguiu se conter, por mais que tentasse! É... É assim que eu vejo o mundo: como uma grande piada e eu não consigo parar de rir!


Batman: A Piada Mortal, escrita por Alan Moore e desenhada por Brian Bolland, conta a origem de um dos sorrisos mais macabros dos quadrinhos. Escrita em 1988, a HQ hoje é considerada uma das mais intensas e interessantes do Morcego e do Coringa. Lançada originalmente como um "spin-off", ou seja, uma história à parte da saga padrão do universo DC, A Piada Mortal nos mostra que, no final das contas, um dia ruim pode ser a gota d'água.

Há SPOILERS de Batman: A Piada Mortal neste texto.
Se você ainda NÃO leu a HQ ou assistiu a animação, pare agora e faça isso.
A experiência da leitura será muito melhor se você já conhecer a história.
Você foi avisado.


O vilão mais famoso dos quadrinhos do Batman na verdade não era tão perverso e pirado assim antes de colocar um sorriso no rosto: sua maior preocupação era conseguir sustentar sua família, uma pena que o ramo de comediante aparentemente não estivesse funcionando tão bem para ele. 


Assombrado pela dificuldade financeira e pelo fracasso profissional, o pré-Coringa resolve que o melhor plano de ação é o crime. Convencido por dois bandidos profissionais de que seria uma boa jogada se invadissem uma indústria química onde o Coringa antes trabalhava, ele entra no plano como um pato. 

A verdade é que, deixando de lado a descrição pura da história do Coringa, tudo que ele transmite é a aura de um homem comum, numa situação de desespero e escuridão no túnel. Ele não enxerga nada a não ser o pesadelo que o cerca, e a esperança que encontra está em conseguir executar o "plano de mestre" e ganhar dinheiro suficiente para mudar de vida. O verdadeiro problema começa quando ele se vê num desses dias ruins.


Primeiro sua esposa morreu, levando consigo seu filho ainda não nascido; em seguida, forçado a continuar o trabalho sujo dos bandidos profissionais, o rapaz franzino é perseguido pela segurança da indústria química e, ao ser confrontado com o Batman, acreditando que ele era o Capuz Vermelho, se joga dentro de um tanque. 


E assim surgiu o Coringa.




ESCUTE SÓ, TINHAM DOIS CARAS NO HOSPÍCIO...

A grande sina do Coringa, sua grande motivação e "destino fatídico" é de ter tido um dia ruim e de querer mostrar que o que separa ele das pessoas normais é justamente isso: aquele dia em que tudo dá errado, quando todas as coisas do universo conspiram contra você e te tornam o demônio que você é. 

Quantos de nós já não estivemos em situações de tamanha dificuldade, quando tudo parecia ruir ao nosso redor e não havia nem mesmo uma fagulha de luz no abismo em que nos encontrávamos? O Coringa não é um maníaco por natureza, muito menos uma entidade sobrenatural ou uma pessoa possuída por algum alienígena perverso ou mutante brincalhão. O Coringa é um humano, uma pessoa como qualquer um de nós, e é isso que ele quer provar: que você também pode ser como ele.

Na história d'A Piada Mortal, seu grande objetivo é transformar um dos exemplos de Gotham, o comissário Gordon, em um lunático como ele, mostrar que até mesmo a mais sã das mentes pode se deixar infectar pela loucura. Mas a sua grande curiosidade - e a nossa também, caro leitor(a) - é o Batman, não Gordon. 


Existe uma curiosidade no Coringa sobre a própria origem do Batman, afinal, "seu dia ruim o deixou tão louco quanto qualquer um. Só que você não admite...". 

Mas, afinal de contas, aonde iremos chegar com todos esses pensamentos? 

A história de Moore é uma expressão filosófica, uma narrativa que tenta entender até que ponto são diferentes Batman e Coringa. Atacar Barbara Gordon, deixando-a paraplégica, encerrando por completo uma das heroínas marcantes do universo do Morcego, a Batgirl; sequestrar o comissário Gordon e força-lo a ver as imagens que viu, revisitar os traumas todos de uma vez; tudo isso para atingir Bruce Wayne de alguma forma, porque ele é o responsável por Gotham, ele é o responsável por todas aquelas pessoas.

Diferentemente do Coringa, Wayne resistiu ao dia ruim, foi capaz de enfrentar aquilo que mais lhe assombrava e pôde, no fim, se tornar algo diferente do seu arquinimigo. Enquanto o Coringa sucumbiu ao dia ruim, tornando-se um lunático assassino, desejando mostrar a todos que, no fim das contas, tudo não passa de uma mera piada de mal gosto - ou de muito bom gosto -, o Batman é o exato oposto, é aquele que caiu num dia ruim, mas soube seguir em frente.


Sabe por que caímos, Bruce?
Para que possamos aprender a nos levantar.

Bruce Wayne caiu no fundo do poço: sua família toda foi morta de uma vez só, tornando-se um órfão; aquilo deveria ter sido suficiente para que ele se tornasse um Coringa também. O que o distingue, então? 

Todos sabemos que uma das filosofias do Batman é a de nunca matar, nunca agir de forma a se tornar um justiceiro, um vingador. O Batman é aquele que, mesmo vendo todas as desgraças, segue firme e crente no poder das instituições e das pessoas. Ele poderia acabar com todos os vilões de Gotham com pouco esforço, tornando a sua cidade um lugar limpo das infecções que a assombram. Entretanto, sua visão não é essa.

Friedrich Nietszche, filósofo alemão, tem um pensamento forte que pode trazer à tona os motivos pelos quais o Batman não é o Coringa e vice-versa. 

Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.
- Além do Bem e do Mal, NIETSZCHE, pág. 99 

Não seria mais fácil para Gotham, para o governo e para o próprio Batman se ele simplesmente capturasse seus inimigos e, em seguida, matasse todos eles? Em pouco tempo ele teria se livrado de todos, em pouco tempo Gotham estaria em paz. Mas o que isso lhe custaria? De que adiantaria, no fim, derrotar todos os monstros se você fosse obrigado a se tornar um deles? Dar a outra face, é disso que se trata. Trazer justiça sem se tornar você mesmo um justiceiro, mas sim pelo que é certo. E se você quiser provas de que essa frase de Nietszche está tão incorporada no pensamento de Bruce Wayne quanto das histórias do Batman como um todo, eu lhe dou essa colher de chá.

Ou você morre herói ou vive o suficiente para se tornar o vilão.
- Harvey Dent

Batman em "Crise nas Duas Terras"

O BATMAN APAGOU OU NÃO A LUZ DA LANTERNA?

No fim da HQ, frente a frente com o Coringa, Batman oferece ajuda, diz que pode tentar reabilitá-lo, mas, apesar de um momento um tanto quanto esperançoso na reação do palhaço, alguém que foi consumido pelos seus próprios demônios não costuma voltar ao normal.


A piada é: Tem dois caras num hospício. Uma noite eles decidem fugir. Daí eles vão para o terraço do hospício e viram, do lado, um outro prédio em que poderiam saltar, um prédio que apontava para a liberdade. Um deles saltou e alcançou o outro telhado, mas o outro se recusou a pular, ele tinha medo de cair. Foi então que o que já tinha saltado teve uma ideia, disse que colocaria uma lanterna e apontaria a luz para os vãos dos prédios e o colega poderia atravessar pela luz. Mas o outro sacudiu a cabeça e disse: "Você acha que sou louco? E se você apagar a luz enquanto eu estiver no meio do caminho?".

No final das contas, os dois caras do hospício podem ser Batman e Coringa. O Batman saltou e ofereceu a ajuda ao colega, mas este, perdido na própria loucura, não mais aceitava ajuda, não pelos meios, mas sim por quem oferecia. Seu medo é de, talvez, se livrar da própria insanidade; talvez o Coringa tenha fechado os olhos quando olhou para o abismo, e isso o consumiu por completo. Talvez, só talvez, se ele tentasse olhar novamente, dessa vez sem desviar os olhos, ele não fosse capaz de aceitar o seu próprio abismo.

E, respondendo a pergunta que talvez muitos dos leitores estejam se fazendo - e se fizeram depois de ler a HQ -, o Batman matou ou não o Coringa? 

Apesar de respostas mais óbvias como "Ah, a história de A Piada Mortal entrou na cronologia padrão do Batman por conta da Barbara Gordon que virou o Oráculo, e o Coringa continua vivo.", eu gosto de enxergar o lado filosófico da coisa. O Batman não mataria o Coringa, ele nunca faria isso e o motivo é simples: Bruce Wayne é aquele que, olhando para o interior do abismo, nunca deixou que ele o consumisse.


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